E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos. E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar. - Atos 2:42-47
Era um dia frio em Brasília, alguns professores perceberam que o aluno não estava agasalhado. Preocupados com a situação, perguntamos porque ele estava sem casaco em um dia tão frio. A resposta deixou o clima ainda mais opaco: "eu não tenho casaco". Imediatamente começou uma mobilização entre os professores. Todos mobilizados a conseguir um casaco para aquele aluno. Eu não possuía casacos para doação, apesar de ter alguns, o estado deles já era muito de uso, mas me envolvi naquela causa.
Como sou adventista do sétimo dia, fiquei tranquilo com aquela missão, uma vez que as igrejas adventistas possuem um departamento de assistência social, e geralmente, em períodos frios, temos as chamadas "campanhas do agasalho". Não parecia uma tarefa tão difícil.
Mas como o assunto era urgente, e as comunidades que eu tinha certeza que seriam prestativas estavam longe, procurei comunidades mais próximas a fim de agilizar a solução. Mas o resultado foi desastroso, mesmo sendo um membro ativo relativamente conhecido no DF e entorno, o que encontrei foi um mar de burocracia e nenhum casaco. Foi deveras frustrante.
Enquanto eu me envolvia no mar de burocracias: a pessoa estuda a Bíblia? De onde a pessoa é? Fale com fulano ou cicrano... Só pode doar mediante isso ou aquilo. No dia seguinte, já haviam dois belíssimos casacos, trazidos por outros professores, que não precisaram da ajuda da igreja, simplesmente falaram com familiares e pronto.
Diante de um pedido desses, qualquer pessoa se sensibilizaria, a menos que esteja tão submersa sob institucionalização, dogmas, teologias baratas e pseudo cristianismo. Que bom se isso fosse distante, mas está bem ao nosso lado, e tomara que não, mas muitas vezes, exatamente em nossos corações.
Diante de tudo isso, ainda que houvesse conseguido portas abertas para ver as opções disponíveis, me vem outra pergunta: e se não tem o ideal, daria qualquer coisa sob a justificativa de que "fiz a minha parte"? Particularmente, se eu não conseguisse um casaco minimamente bonito, eu não teria coragem de dá-lo ao aluno. E alguns vão questionar: mas se precisa muito, tem que aceitar qualquer coisa. Será? Nós precisamos desesperadamente da graça de Deus, Ele nos ofereceu qualquer coisa? Ele nos entregou o mínimo sob o pretexto de que já que precisávamos, era o que tinha?
Esse texto não é uma crítica direta à uma instituição religiosa, porque justamente como membro, sei muito bem e inclusive trabalho em frentes que ajudam milhares de pessoas ao redor do mundo, mas uma crítica ao cristianismo barato, presente não apenas na minha, mas provavelmente, na sua igreja também. Que não permitamos nunca, que ajudar, para nós, seja um ato de dar qualquer coisa, mas um ato de amor genuíno, sem esperar nada em troca, porque é isso o que recebemos de Deus.


